cigarrilha budista

não sou um bom vencedor
não sei lidar com elogios
o afeto alheio me assusta
ganhar me faz temer
não quero a beleza
ao meu lado
suplicando
por
autoafirmação

não sou um bom perdedor
não sei lidar com críticas
o desdém alheio me deprime
perder me faz tremer
não quero o feio
ao meu lado
suplicando
por
transmutação

quero
a dose certa
o deus comedido
o caminho do meio
e os seios
do tamanho
da minha
mão


na borda da tua sopa

a famosa alegoria
da carne sem pele
que tudo sente
de forma
desproporcional

a dolorosa mania
de ver
pretensões
subentendidas
e preceder
no teu olhar
apenas
o meu mal

assim o belo
passa a ser
ofensivo
fico
encolhido
defensivo

sem
autopiedade
com
o pino
na boca
e
a granada
na
mão

não é
por maldade
mas
meu corpo
inteiro
clama
por
destruição

o silêncio que precede

a condição é razoável
talvez uma contemplação
antes de tudo ficar
tão deplorável
a ponto
das
migalhas
virarem
ouro

mas
neste momento
antes da formação
do tornado
estamos
em um
estado
agradável
não me sinto
ressentido
ansioso
ou
endiabrado

espero
com
as
veias
resilientes
a hora
do
trem atrasar
do
céu escurecer
e
dos pássaros
voarem desesperados
assim
que
você
chegar
no
portão

efeito vertigo

eu já não sei onde me procurar
quem me lê
não ousa
me comprar
por deduzir
que tenho
questões
mal
resolvidas
com
falecidos romances
inseguranças de antes
humores itinerantes
desequilíbrios sinápticos
demônios escolásticos
vícios pornográficos
composições malemolentes
curiosidades impertinentes
e
que vivo
sempre
doente

não estão errados
mas
isto
é
somente
poesia
e não
uma
maldita
criptografia

wilkinson sword

a vivacidade
que
termina
senil

a dopamina
terminando
em
rivotril

tanto ego
culminando
em
apatia

tanta reticência
que
termina
em
poesia

tanto amor
que
termina
em
lâminas
lancinantes

tanta vida
por descuido
em
momentos
fulminantes

como pode
tanta
quantificação
e eu
não
encontrar
a
palavra
certa
que
sintetiza
a
sua
ausência

remédios, toc e superstições

escrevo pequenas fagulhas de devaneios e imprecisões

é até desonesto com quem quer me mapear

eu não vim aqui para te fazer sentido

o que eu escrevo não é o teu lar

intérpretes fundamentalistas tentam dar rosto ao homem retalhado

e toda conveniência para o desejo atiça o prazer

cobiçam da palavra o significado mais agradável

fomentam meu riso pois sentido não vai ter

minha poesia é só trepidação do meu ego

nem sei ao certo se veneno ou remédio

superstição é escrever em qualquer termo

e me entreter com as suturas deste tédio

cumprindo meu papel de errado

Você ainda se recorda da nossa viagem de ácido para Atlanta?

Das brincadeiras com rimas improvisadas aproveitando o THC antes de dormir?

Das leituras em voz alta de Schopenhauer imitando personalidades?

Da mútua aversão nos dias de tenebrosa ressaca?

De fechar botecos estilo copo sujo com o violão em riste fazendo arruaça?

Do veneno que aplicamos um no outro naquela madrugada sombria?

Dos livros que mentimos que lemos e de nos fingirmos de burros para servir de escada um para o outro?

Você lembra o quanto custou tudo isso?

Agora… nenhuma recordação faz sentido. Não nos respeitamos e a lembrança juntos é como limão e sal na ferida que tomamos junto com tequila esperando que tudo se apague para sempre.

alucinação de Bia

o rascunho da vida
que encampa seus dias
a perfeição
que obceca o seu desejo
a incompatibilidade
entre o gozo e o sagrado
o eterno ensaio
do que há pra ser feito

não há amor
ao pensar
em amor
não há tesão
ao pensar
em tesão
não há loucura
ao se definir
seus
limites
não há sonho
ao se deitar
de armadura

a realidade
é o
substantivo
que você
tanto
evita

a verdade
é o
que você diz
que diz
embora
minta

a tumba que fiz pra ti

Dagon ou Leviatã
ou
qualquer um
que te veja
silenciada
no passeio
desta
manhã

misturar
vinho e saliva
cama e brasas
arquétipos e sexo
em
poemas desconexos

enxertar
meu sadismo
no teu desespero
a tua lágrima
na minha
língua
como
fresco
tempero

evocar
inominadas
entidades
fazer
terror
deixar
de ser
realidade

andar
pelo cemitério
é
tão pacífico

luto
pela humanidade
enquanto
crio
histórias
em
micro fotos
procurando
guimbas
de cigarros
mentolados
ou qualquer
traço
do meu
passado

Caps Lock e paixões

queria estar em um comercial antigo de Campari
nunca respeitei alguém que me dissesse “pare”
duas doses da morena pra cá
duas doses da morena pra lá
e eu largo a morena
pela quinta dose

me arrependo
na privada
me arrependo
da piada
me arrependo
na ressaca
mas já não
pego
mais
a
faca

tua voz
é o dobro
do teu
tamanho
que é
metade
do meu
amor

mas
cada
vez
mais
eu não sei
o que
me
satisfaz

sou limitado
ao lirismo
e
à demanda
reprimida
quando
o fastio
me passa
pra trás

nunca te vi
mas já te
quero
por
instantes
eternos
que
não
resolverão
meus
desleixos
internos

meu amor
atua
por debaixo
dos panos

meu amor
se
resume
à redução
de danos

lacrimosa do parque das frutas

que saudade de você!
há 15 anos não te vejo
e vendo
as ranhuras
do tempo
no seu
sorriso
tenho
a assoberbada
curiosidade
de pactuar
com o
imaginário
acerca
do que
perdemos
quando éramos
jovens

eu bêbado
você lagrimosa
eu afoito
você solitária
eu trovador
você perdida
nós dissonantes

qual seria
o sabor
morfético
do nosso
reencontro?

mas meu interesse
se esvai tão fácil
quanto veio
a realidade
não faz
sombra
ao que
almejo
quando
ilustro
tudo
com
a
paleta
corrompida
do meu
desejo

tosca durga

eu
que
tanto
te
quis

por algum
motivo
que até
hoje
eu
não consigo
exprimir

mas
uma
necropsia
mais apurada
das tuas
intenções
me faz
torcer
as
bolas
a acreditar
que tudo
se limita
a algum
tipo
de
parasitagem
emocional

eu que
inadvertidamente
te tornei
protagonista
não percebi
teu anseio
de ser
eterna
coadjuvante

talvez
tenha
te
seduzido
com minha
idolatria
mas
te coloquei
em um
pedestal
que
certamente
uma hora
te
despencaria

dano feito
egos feridos
não posso
ficar
puto
contigo
se
errada
somente
minha
expectativa