devocional

perder e perecer faz parte do óbvio do processo que se apresenta

a aniquilação é certa e construir algo durante o caminho parece ser um desperdício de caótica energia

os homens de bem lançarão bombas sobre suas melhores construções

seus livros serão queimados e suas palavras eternamente esquecidas

seus beijos, seus vexames e seus fracassos serão inócuos perto da cólera ceifadora dos outros

sua experiência será ignorada pela humanidade

e mesmo que você tenha algum valor, a usura lhe tomará o crédito

na melhor das hipóteses o fim será pelas próprias mãos

a praga, a peste e o vômito da natureza serão seus dias mais interessantes

e o seu sêmen improdutivo será condenado à dor pior do que a que lhe antecedeu

o barulho dos culpados

a depressão sempre está lá

quieta e furtiva

sonâmbula e hipnótica

por mais que a aparência

seja de um defunto limpo e arrumado

basta tirar os tampões

e a putrefação melancólica retoma

sou o lugar onde não quero estar

pensamentos, sentimentos e cálculos paradoxais

um motor afogando o tempo todo

sem audição para os cantos dos pássaros

apenas dos corvos e urubus

inundado de ausências constritoras

me perguntando se é anjo ou demônio

que está na porta para me levar

ventos de pazuzu

vai perpetuando o frio do teu riso barroco na minha lembrança

vai esvaindo as cenas dos nossos filmes mudos sem fé ou esperança

nem todas as histórias controversas te contei com olhar distante

nem todas as mentiras empíricas te revelei naquele último instante

fiz o que precisava ser feito ao meu ausentar da cabeceira dos teus desencontros

não falo mais o que sinto haja vista minha visão ser só desencantos

não acaba minha sina errante com a bandeira quadriculada

minha maestria é encontrar a resposta certa quando todas são as erradas

1º Coríntios 13

a intimidade
nos
serviu
para
colocar
as
cedilhas
no


para
sermos
cirúrgicos
na
hora
de
nos
machucarmos

para
perdemos
a noção
do valor
das
nossas
almas

para
descobrirmos
todos
os
sinônimos
da
perversão

a intimidade
que não
é
aprovada
em exame
toxicológico
nos fez
lastro
de
cadência

nos fez
ver
o
pior
face
a
face

nos fez
gozar
com
a
lágrima
alheia

e
por
fim
rebaixar
nosso
desejo
de
fazer
sentido
ao
desespero
por
anestesia
esquecimento
e alguns
trocados





prurido do amor

nunca foi perfeito
fazia eu me
sentir
constantemente
febril

nada é do meu jeito
e isso
ainda
me
faz
sentir
levemente
sombrio

tínhamos
metas
competitivas
antagonistas
e
sonhos
elásticos
e
sado
masoquistas

nunca
foi
pela
dor
tampouco
amor

nunca
foi
por
estar

embora
teu jeito
de gostar
às vezes
lembrasse


mas estamos
vivos
e isso
não
significa
esperança
estamos
podres
e
ávidos
por
oportunidades
de
vingança



olhos postiços

eu tenho meus motivos para deixar tudo como está

sou o que posso ser agora e por isso deixo as coisas pra lá

que seja tarde a versão sépia da nossa fotografia

que seja processo de prosa ao invés de poesia

que os golfinhos morram aflitos em sacrifício

que todos nossos beijos sejam agora desperdícios

que a noite seja o farol de quem tem fotofobia

que a homeostase seja sua prisão e maior agonia

são os rituais e tiques da nossa convivência

são os prismas míopes da nossa decadência

e quando voltar a querer algo em troca

vê na minha lápide o sentido que lhe desfoca

e faça como eu

deixa pra lá

pois os anjos

têm as suas

próprias

obsessões

preto absoluto

acordando
de mais uma
anestesia geral
não há latifúndio
não há ceifador
não há
Santo Graal

há sede
nem tanto
de vida
nem
tanto
de
água
ressignifico
raiva
agora
é
mágoa

beleza
não
é
mais
diabólica
paixão
não
é
mais
diastólica

o plano
já foi
não
acordar
não
levantar
da
cama
entornar
um litro
de
desinfetante

mas
de
tanto
errante
em
novas
cicatrizes
e
no açoite
ao
hierofante

passo
a
descansar
das
minhas
profanações
do
talmude
e
da
minha
pulsão
de
finitude

gol de honra

o que te fascina é não ter fim
o que é fascista para mim
não me libertar
do teu olhar
embriagado

à tua sombra
fadado

digamos que eu seja o segundo
melhor beijo
daquela semana
e o nono melhor
comediante
na cama

iludido que ainda
me ama

e num domingo
visceral
daqueles
de enjoos
náuseas
e mapa
astral
eu só
penso
como
é bom
nunca
mais
falar
parabéns
no teu
aniversário
e hoje
ser
considerado
teu
adversário

tiago polimorfo

cair
cair
cair
em
paixão

eleva
a
vontade
e
as
pulsões
de
vida
morte
e
eternidade

é
um
tremendo
suplício
fiscalizar
mais
um
exercício
sem
você
me dizendo
que eu
lhe
trato
como
vício

lembrança
é
amostragem
da nossa
última
viagem
que
acabou
com
uma
briga
selvagem

não
tem
forma
de
bondade
essa
falta
de
publicidade
do
nosso
estado
de
calamidade

cair
cair
cair
como
lava
no
mar
eu
viro
uma
escura
obsidiana
que
lhe
ama
mas
não
quer
amar

a poesia engavetada

quando
me faltam palavras
mas sobram
os sentimentos
ela ainda quer
ler algo meu

ela exige
determinada
uma evocação
literária
mesmo
não gostando
de mim
tanto
assim

mas
ela ama
o poeta
o versador
de ladainhas
o ocultista
das entrelinhas
e conjurador
da sua figura
altiva e amável
em termos
lexicais

ela vem
me ver
quando
convém

no fundo
ela não
ama
ninguém
além
do seu
reflexo
no lago
de fogo
do
inferno

tomografia do poema

bipolaridade, dependência química e contravenção

hiperatividade, borderliner e dissimulação

pensamento acelerado, compulsivo e taquicardia

quando apaixonado, obsessivo e má poesia

caso isolado, tudo ferrado e avalanche

agora internado, pulso cortado querendo revanche

medicado, equilibrado e indiferente

tudo errado, quero viver intensamente