quando o corte não sangra

Não estou sentindo.

Nem vontade de dormir por horas. Nem vontade de acordar para um novo dia. Nem amor e seu delírio. Nem vontade de esganar.

É pura falta de interesse. Aposto pra perder com a resiliência de quem não liga, não se desespera e não sonha com a vitória.

Sem pulsão de vida ou de morte. Sem buscar divindades escondidas ou contratar potestades que caminham sempre ao lado em xícaras de café.

Nada me faz terror. E a dor é apenas um incômodo que já virou lugar comum.

A ausência é tudo. Não encontro a dispersão da natureza. Não encontro a segurança do concreto.

Metal e jazz soam iguais. Tanto faz substantivo sem adjetivação. Tanto faz desafino ou diapasão.

Platonismos poéticos não seduzem e o desejo é uma sopa rala sem sal.

Pode ser a doença se aproximando para me tomar tudo de vez. Pode ser a grande ironia da humanidade.

Não encontro guarida nas loucas memórias do passado e o futuro é um velho sentado na calçada em um toco de madeira observando o desenrolar do fim.

Sinto que estou prestes a ser expelido como um cravo pulsante. E o erro de intentar me mudar é competência exclusiva dos controladores obsessivos.

Minha escrita é um abuso melancólico e eu não tenho nada além de um dadaísmo emocional para entregar.

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