desconfigurado

quanta sirene nos meus pulsos
e inverdades sobre os fatos
só porque é arroz, feijão
e desespero

e o medo
de sentir
dor
solidão
a lacuna
gigantesca
entre
minha respiração
e a
esperança

ser bom
em
ser
triste
é
perder
o resto
da vivacidade
em refluxos
silêncios
e
desconfortos

e
demora
para
café
combinar
com
felicidade
e
meu
espelho
combinar
com
algo além
de
autopiedade

renúncia de mim

o desespero que rodopia
quero sentar e esquecer
quero sentar e ser deus
controlar o ar que entra
independer do ar que sai

pulsão de morte ao amanhecer
pulsão de morte ao entardecer
e eu me sinto indigno
dissimulado
preso
na
armadilha
que eu
preparei
com meus dilemas
com o ímpar
cheio de quinas
e inversões
de prioridades
na agulha
mais
cruel
de se
sentir

e
desesperado
querendo
abraçar
e ser
menos
dor
e ser
menos
o que
foi
ser
menos
eu

L’avventura di Natalia

vendo todas as desventuras do tempo em que éramos juntos em hecatombe
me sinto procurando versos de amor em músicas do Cannibal Corpse
meu mamoeiro não dá frutos enquanto meus cactos imploram por água
e eu sinceramente vou te amar pelo tempo que me arrastará ao fim
mas sou linha de frente quando o assunto é a cólera ressentida
vou seguindo sem flores como leão pacífico cultivando câncer
minha geração que lambe a carniça dos seus antecessores
e a falta de esperança é a única postura sensata e verossímil
pelo tempo no qual as trepadeiras invadem nossa realidade
fazendo nossas vontades serem apenas anestesia e covardia


matrioska succubus

eu quero me inspirar
em qualquer coisa
que não seja
a pestilência
apocalíptica
que perfaz
as minhas
sinapses
intestinais

o fogo amigo
o fogo-fátuo
o fogo
da
sua nudez
sigilosa
no
meu
e-mail
a faísca
dos seus
desejos
matinais

eu quero
escrever
sobre algo
além
deste
hiato
me esquecer
do domínio
das massas
emocionadas
e dos efeitos
do
topiramato

eu quero
me apaixonar
pelos
seus
cristais
carentes
de
significado
ver o
mundo
como
perfeito
paraíso
quando
no seu
âmago
adjudicado




bustiês e pentagramas

você é minha ex
não sei se
ex nunc
ex tunc

ou
se
partícula
expletiva
dos meus
poemas

outrora
êxtase
hoje
expropriação
da
minha
volição

pertence
à
lacuna
do que
desejo
ser
e o
desânimo
que
sou

o
latifúndio
das suas
intenções
megalomaníacas
corrompidas
pelo fato
de você
agora
ser
mera
escada
da
perversão
alheia
e
figurante
do
solilóquio
de alguém

mas
para
mim
você
é
a
incompletude
mais bela
de ser
ex

entre o cupido e dantalion

cansado de apagar
as faíscas dos teus
incêndios
e todo
esse
desejo
fascista

as grotescas
intenções
não
reveladas
competem
com
a
culpa
cultivada
em
matizes
erráticas

e
o teu
amor
é
pesado
desmedido
corrupto
e
altivo

porém
toda
forma
de
repressão
seduz
o
anarquista

e se um dia
estive nas
tuas mãos
nos teus
pés
e nas tuas
conjunções
hoje
fujo
à tua
vista

anestésicos e poeira estelar

nossos desgostos
se atualizam
quando estamos
dormindo

cravo parágrafos
em foices
com os girassóis
sorrindo

não te encontro
mais em mim
nem em bemol
nem sustenido

já abdiquei
do trono
espero que
tenha vencido

não precisa reparar
no meu corpo
ensanguentado

tua meritocracia
é meu coração
coagulado

antes ser eu
embasbacado
que te perceber
gado marcado

na minha ausência
os gatos gritam
e meu berro
não te ofusca
só não pense
que eu te amo
e não me
busque
na
Augusta

dizendo o que o diabo gosta

quando lhe disse
para melhorar
seu poder
de síntese
não era
para ficar
calada
por tanto
tempo

quando lhe disse
para improvisar
a vida
não era
para fazer
jazz
na
língua
alheia

quando lhe disse
que o céu
era
o
limite
não era
para você
ter me
abandonado
no
umbral
da
sua
ausência

quando lhe disse
que tomaria
cicuta
só queria
sua
atenção

quando lhe disse
adeus

queria
que
você
dissesse
NÃO

pergaminho inflamável

a felicidade não se encontra em uma foto de preponderâncias e passividades
o fato não se torna menos fátuo em função da minha opção abstêmia pela ignorância
se eu nunca te tratei como você gostaria é porque minha natureza se rebela em cerceamentos
se eu te abandonei é porque não havia mais rimas em nossas poesias e cores nos nossos lisérgicos
era só prosa
morta
e
teus
pretos-nos-brancos

pássaros feridos

o mate
que me
impede
de chorar

a arte
que me
impede
de morrer

quando nada
se ajusta
ao meu
travesseiro
e a medida
dessa vida
não é
justa

quando
impropério
é elogio
e o riso
é algo
sério

quando
o som
dos
pássaros
em bando
fugindo
da chuva
é o que
eu tenho
de amor
próprio